País real

Eu recordo-me do meu tempo de estudante universitária, nas minhas idas a casa de fim-de-semana. Como eu sabia, a bordo do expresso, estar a chegar ao Porto. Era quando apareciam as barracas, nos terrenos contínuos à auto-estrada. Agora, eu sei como estou no país real, é quando na minha travessia diária do Tejo, vejo o acampamento improvisado dos sem abrigos, debaixo da ponte. Antes, eu vejo cruzeiros de luxo atracados no porto…

Esta é a mesma terra onde o salário mínimo é de 485€, há poucos anos atrás, eram só 300€. Onde a maioria dos trabalhadores o recebe. Até há pouco tempo, em regra se somava o subsídio de alimentação. Com os descontos legais dá à volta de 540€ líquidos. Contudo, cada vez mais há quem não receba este subsídio, e leve para casa apenas 430€, por mês. Contudo, há cada vez mais, quem se sujeite a receber abaixo do salário mínimo e leve para casa cada vez menos.

É neste país real, que eu vejo salários acima de 10.000€ mensais, quando aos jovens licenciados já só se oferece 500 ou 600€. E é neste mesmo país real, que falo com miúdos, que sempre estudaram em colégios privados, rodeados de colegas aspirantes a medicina, sempre a falar de riquezas.

Será que ninguém vê o que eu vejo? Ainda me lembro, da noite duma serenata em Coimbra, em que todos os estudantes comemoravam com bebida e alegria, e eu vi. Só eu vi, uma senhora idosa deitada no banco de jardim. Ali à mostra de toda a gente, com a mala no chão à sua frente, ali exposta, sem se importar com possíveis roubos. Ela estava exposta, mas ninguém la viu do meu grupo de amigos. Ninguém lhe deu atenção.