Ofélia morreu
Ofélia morreu na água. Afundou-se nela, a peso dos seus vestidos. Trazia grinaldas nos cabelos e tinha um rosto como o meu.
Eu poderia ser ela.
Ela foi rejeitada por quem jurou ama-la. Ela enlouqueceu, ela cedeu.
Eu também queria os seus vestidos soltos espalhando cetim pelos espinhos.
Eu também queria os seus cabelos soltos, despenteados e cheios de encanto, como os meus.
Eu e a Ofélia somos iguais. Temos a mesma loucura. Porquê? Eu imagino a água daquele ribeiro estivesse morna para a receber melhor. E os peixes, que terão feito aos seus cabelos? Terão feito um recital? Um verso…
Ela não terá envelhecido na água.
Ninguém daqui a terá tirado.
Ela se cobriu com flores. E dali dizem que nasceram milagres. Ela se tornou santa. A Virgem Ofélia. Padroeira dos suicidas. Quantos já lhe sonaram… Quental, Mário de Sá Carneiro, eu já os ouvi.
Vivaldi, não, não se matou, mas dá-lhe a banda sonora, quatro estações quatro flores. Sendo Outono o da queda da flora, mas quando é Outono…
