O vento urge

O vento ruge

Os meus cabelos folheiam.

O salvador da pátria desfaleceu

À frente 1 vendedor de títulos do tesouro

Desvende ao desbarato.

A Troika chegou

A Santa Casa da Misericórdia tem a porta aberta.

O vento ruge continuamente

As minhas folhas permanecem imóveis.

A árvore encandeia-se

A esta hora os pobres vêm buscar suas sopas.

Os bancos do jardim estão despidos.

As casas de banho atreladas

A esta hora chegou 1 velho à direita.

Olha p/ a montra do relógio.

Faz uma pausa.

A sopa ainda não está pronta

Os caixotes de lixo ainda estão cheios

Alguns ainda se enchem.

O sino tocou há segundos 3 toques.

As brasileiras passam na vadiagem

“Onde estará o restaurante?”

2 de muletas se cruzam

Têm cores diferentes.

O banco à direita já ficou vazio.

O pintor à minha frente parou.

Acho q/ me quer pintar a mim.

O vento ruge.

Na calçada de preto 1 barbudo espera mãos no bolso.

O lixo se encheu

Foi atado, outro barbudo de preto o comanda.

As portas permanecem abertas.

O autocarro urbano passou rugindo.

Frente à porta da Misericórdia 1 cartaz preso num poste de Luz: “Manif 19 de Março”.

 

Lisboa

22-07-2011