O meu país está em crise

O meu país está em crise, mas a cronica é pior que a anunciada. O meu país está em crise, o meu país está a entrar propositadamente nos clubes dos subdesenvolvidos. A solidariedade europeia caiu. Os mercados emergentes são mais atractivos que os PIGS.

Ontem, vi nas notícias, os belgas e os holandeses acham indecente a nossa situação. Principalmente depois de tantos fundos comunitários recebidos. Tínhamos a obrigação de já ter feito as reformas e as modernizações necessárias. Não os censuro, neste ponto têm razão, tanto dinheiro da CE entrou no país! Como lhes hei-de explicar que todas as “mangueiras de ajuda” são rotas, e que sempre gotas, neste caso, inundações de verbas, vão cair noutros bolsos?

De qualquer modo, tenho de os informar que Portugal deu um grande passo civilizacional nestes 27 anos de pertença à comunidade europeia. Eu nasci no ano da assinatura do acordo de adesão, ali no Mosteiro dos Jerónimos. Eu cresci e Portugal cresceu. Não me imagino fora da EU, afinal incutam-me os seus valores desde pequena.

Contudo seremos nós descartáveis? Disseminado pelo Facebook, chegou até à minha leitura, nestes dias, um artigo de opinião alarmante. Nesse se explicava o porquê do interesse da Alemanha, (já há muito unificada), em manter os países do sul europeu sob o jugo da austeridade. Baixas taxas de juro, não desvalorização do Euro… Como mercado de exportação já não interessa, os mercados emergentes são a nova aposta. No limite somos um fardo.

Um fardo é como sentimos, cada um de nós, a crise. As nossas frases de motivação: “Não é a primeira nem há-de de ser a última do país”, “Havemos de ultrapassar como sempre fazemos”, ou “As crises têm sempre um fim, esta também há-de finar, quando chegar a sua hora”… Mas quando será a sua hora? Há quem a queira iludir, falando já na pós-crise, na pós-troika. Como se isso a lastimasse e não fosse um puro exercício hipotético.

No fundo, somos só um povo. Um povo não questionado sobre a sua vontade. Um povo ao qual se pede compreensão, tolerância, resignação. Sobretudo resignação. O povo mediu forças com o poder politico, na rua. Não lhe valeu de nada. Os destinatários eram surdos e mudos e cegos. No fim, se há uma exaltação da sua parte, há-de vir a polícia, os seguranças do senhor ministro... Resta cantar. Cantar a música de intervenção. A música que se cantou quando enfrentávamos o fascismo. No que hoje poderia ser diferente? Diferente em pedir uma terra fraterna, igualitária, enfim solidária?