Não quis ser o que fui
Não quis ser o que fui, mas pelo caminho havia pedras que eu não sabia escolher. Media-as, pesava-as, prova-as e depois atirava-as ao riacho ali perto. O problema é que não havia riacho ali perto. Demorei a pensar que vivia num deserto.
“Será que estou perdida!? Será que 1 deserto tem 1 auto-estrada ou eu tenho de apanhar sempre a estrada nacional?” De qualquer modo ia a pé.
Tão a ver aquelas caminhadas, retiros no deserto q/ Jesus fazia? Mas ele era doido ou quê? Isto não tem graça! E quer do diabo p/ me submeter às tentações, eu sucumbiria a um belo oásis, nem que tivesse que comer sal!...
Se calhar não havia deus naquele deserto. Eu estava só. Mas, também isso demorei a pensar. A solidão não é uma coisa que se pense. Só o só às vezes.
A dada altura tomei um monte de pó. Desfiz pedras, e enfiei-las pela garganta a baixo. Tomei várias vezes a ver se passava. Lá estava eu estirada no deserto à espera que alguém me salvasse, se vinha o Inem..
Eles vieram e meteram-me num carcere. Pelas grades do carcere via-se oásis, riachos…
Dentro do carcere carregava o deserto às costas. E conheci outros em situação igual. “Que medonhos! Pelo menos o meu tem os horizontes perdidos!”
“Estou numa cruzilhada, por onde me viro? Ao menos deixam-me sair do carcere p/ ir buscar o riacho!”
Ao pé do carcere havia 1 incineradora. Simbólico, não? Há noite ela ardia. E eu pensava que eu podia estar a arder lá dentro.
