Imperfeição submissa

Damos dois dedos de conversa, na rua, trocamos calorosas queixas da vida malograda (mas foi o que Deus quis?) … E deitamos a língua de fora, a fim de o maldizer da vizinha.

Ah, aquela fulana, aquela mulherzinha, (que não é Marx), fez isto, fez aquilo.

Ah, que pouca vergonha. Onde irá o mundo parar?

Ah, é obra do diabo.

Ah, ai, a mim nunca me enganou, com aquele ar de sonsa!

São as piores, as moscas mortas.

Ah, mas a mãe tão boa pessoa.

Ah, deve estar a morrer de vergonha…

Ou talvez não. Ela teve de aprender com alguém.

E esta é a típica conversa de vão de escadas.

“Putas que as pariu”, entram as comadres no autocarro e inauguram a conversa contínua com esta frase. O norte é santo em linguagem directa. Roubo de botijas era a origem da conversa.

Dar ao pavio! Tão nosso, socialização, diria médico ordinário. Só falámos de defeitos. Será que falámos de perfeições. “Oh tão boa pessoa. Bom marido, amigo dos seus filhos! Santo homem. Nunca lhe ouvi um palavrão saindo daquela boca. Deus o tenha! Vai para o céu, com certeza.” Só falámos assim, quando a pobre alma se esvaiu de sangue, passou pela morgue e agora ceia em câmara ardente. Nas vésperas dos funerais, todos os defuntos são parvos.

Miragens, leituras de sentidos, que as nossas caras apresentam nas ruas. Somos sempre apreciados. Temos sempre um rótulo. Fazemos operações de marketing ou representamos. Há várias escalas de integração: “super popular, tipo popstar, craque de futebol, até ao marginal que dorme ao relento”. E há várias categorias de catalogação. Vários nichos de mercado. Várias personagens predefinidas. Vários estereótipos adoptáveis. Várias tribos prestáveis. Escolhe-se um desses fatos “pre-formatáveis”, levamos os seus prós e contras. Ao escolhermos os fatos, já escolhemos as imperfeições, as críticas. Porque tudo é black and white, gris é para velhos, e nós somos todos novos.

Quero fazer o meu próprio fato, quero ser perfeito. É montável?

Então, não posso ser o meu próprio alfaiate? Pois, é que o facto da nossa vestimenta social não ser facilmente reconhecível já é um defeito.

Resultado. Sou imperfeito. E ser imperfeito é requisito básico para ser gente.