Humanos que se vendem

Há uns anos atrás tive um pesadelo, que continuo a recordar com bastante nitidez. Talvez pelo choque da moral revelada, mas principalmente porque podia ser bem real.

Num local plantado no subdesenvolvimento, (Africa será?), um edifício branco de arquitectura modernista, de pátio interior descoberto, ao qual circulavam corredores. Nele também circulavam, nesses mesmos corredores, pessoas de raça mesmo humana. Em fila, mexiam-se a passo, aguardando como multidão que visita um museu e rege-se por uma corda facilmente ultrapassável. O percurso a passo certo e lento terminava numa rampa. Nesse ponto, a pessoa humana saltava, ou melhor, davam um passo no abismo. Um simples passo, sem ensaios de salto, ou de manobras memoráveis. O fim era o fim. Uma massa de matéria em que se fundia carne humana, para fabricar plástico. Sim, esta era uma alternativa ecológica à produção de petróleo. E diga-se de passagem, uma alternativa inesgotável.

Podia-se pensar que aquela massa humana, que se movia em arreias movediças, era movida pelo tráfico humano. Eram escravos raptados, no seu anonimato de insignificância, em terras onde ninguém os queria de cima… Poder-se-ia pensar, porém tal não era verdade. Aquela gente, que por ali circulava, estava ali por sua vontade. Não também não era gente suicida, era gente paga. Vendiam o seu corpo para a produção de plástico em troca duma considerável quantia monetária. Recebiam-na antes da queda programada. Dela não fariam nada, mas morriam por dinheiro. Podia-se pensar que era para seus herdeiros, que eram estes que os motivavam. Não, não eram. Era a vontade de ter dinheiro na vida, muito dinheiro, nem que a posse dele fosse breve, quase instantânea.

E eram de todas as idades aquelas gentes. O dinheiro valia mais que suas vidas. E a Economia era avassaladora. Ficava mais barato comprar carne, pele, ossos, olhos, … que explorar jazidas de ouro negro. Diga-se de passagem, ser este plástico ecológico de maior qualidade e de maior resistência. Uma óptima alternativa ao abate de árvores suponho.