Discurso de Ofélia

Discurso de Ofélia

 

Porque eu não tenho

eira nem cerda

Para desgostar meus desgostos

Minha vida é tão nefasta

de uma tristeza rudimentar

Um lavrar autêntico de meus olhos

 

Meus versículos contam uma história

malograda

Os terreiros alagados são um campo

de cultivo

fertilizo-os é para isso que sirvo

 

Uma nuvem que parece-se desloca-se

ante mim

Tomba um canhão e abre-se

a rebelião

E pude então arregaçar os olhos e versículos

Que pelo meu país choviam vértices

E lâminas no corredor.

E quanto do meu ser é do teu ser

Quanto do meu saber foi de não te ter

 

 

Ricarda Melo

Dezembro de 2006

(a bordo do Intercidades

a caminho de Coimbra)