Cena 1.2
Cena 2
Oh freguesa! Veja o robalo que vem ali!
Dava-lhe aqui umas fanecas! Que estas iscas são aguadas.
Aí meu Santo António! Isto é que é sal grosso.
Dê cá um beijinho o senhor, que eu cá gosto do ver na
televisão lá de casa!
Aí que petisco. Ainda dizem que as sereias não têm dentes!
Ao! Ao!
Ai! O senhor devia fazer novelas. Aí, fazia par ali com a
Maria. Aquela a quem morreu o filho que andava metido com
a outra.
A outra, freguesa! A que trabalhava no hospital mas não
era doutora. Cale-se senhora! Então eu não vi na caixinha,
Domingo à noite, ela caiu no rio!
Claro, ele também, p’ra mim, aquilo foi atentado. Aqueles
espanhóis da Etan andaram a fazer asneiras na Ericeira.
Você é que é tola!!
2.
Veja essa sardinha fora d’água e pensa que é gente!
Oh vende sardinhas podres! Cara de bacalhau!
Aí estas pulhas!
Você é que um rabo de peixe, não, uma baleia!!
Queres ver, não! Aí que me azeda o leite.
Você é que anda com o bebe ao peito!
( Neste momento, naquela peixaria do mercado, o digno
político já tinha mudado de banca. Distribuía beijinhos e
abraços ao pé das alfaces.
As peixeiras já se fatiavam com o peixe, a ramona teve de
ser chamada. Todavia, tal doloroso acto não era nada que
subtraísse o político das alfaces.
Nas últimas eleições esta peixeira votou neste robalo.
Contudo, ao ver o seu filho perder a casa comprada com a
enteada, sua nora, porque ficou desempregado, teve nestas,
atitude dissemelhante.
Vinha com o seu BI caduco. Ao entrar no salão da escola,
arrasta uma cadeira de madeira consigo. Daquelas
dispensadas na remodelação do edifício. Dirige-se à urna.
O senhor cidadão que lhe atende pede-lhe o cartão de
eleitor e em troca leva um peixe. A peixeira saca um
robalo do avental. Mira-lo ao senhor, como se arma se
trata-se. Ao slogan Acalme-se minha senhora! dá uso ao
peixe. O robalo contorna o rosto do cidadão de um lado
para o outro, num esbofetear doloroso.
Os outro cidadãos põem as pernas em uso e afastam-se do
local do delito. A peixeira arranja o banco e senta-se em
frente da urna. O senhor cidadão lá fica, ao lado, de
rosto afiado, manchado de sangue, de peixe.
Aquela urna nunca mais funcionou, fosse o caso de nunca lá
sair a senhora do peixe. Do avental, donde sacou o peixe,
sacou as suas agulhas de croché, que sempre trás para
estas ocasiões de espera. E fez um conjunto de panos para
as mesas de cabeceira da enteada casada com o seu filho. À
hora da retrete, deixava o peixe a marcar o lugar, e
ninguém se atrevia a lo desmarcar.)
