Alma
Devia escrever, mas não me apetece nada.
Quero guardar tudo para mim. Meu mundo seguro e pequenino.
Antes, sentia que as camadas se descascavam de mim. Iam em espiral, deixando-me oca por dentro. As paredes de mim ficaram tão finas, o risco de rasgrem era tão sério. Nada que um x-acto não pensasse nissso. Quando se faz a evacuação de um interior, muito detrito se deita fora, muitas pedras viram calhau. Como numa obra, temos de ter um cesto cá fora para deitar o lixo. O lixo vai em pesadelos. E os atritos raspam também a alma.
No fim, tenho uma expressão: tenho saudades de mim, porque não me reconheço.
Lembro-me, ao estudar o estoicismo e o epicurismo, de ler que na Antiquidade acrediva-se que os átonos a roçarem uns nos outros criavam a alma.
Alma, um lindo nome.
As particulas no ar devem estar cheias de alma. Até deve haver engarrafamentos de alma. Esta, a minha, está designada ao meu corpo. E a linha a nos separar não faço ideia o que seja.
O meu interior enche-se agora. Camada por camada. Do exterior para dentro. Como ele se enche, porque haveria eu de deitar algo fora. Algo como a escrita.
Para quê comunicar quando se tem a Alma. Eu posso falar comigo mesma. Não preciso de folhas para ditar os meus pensamentos. Ninguém os lê. E ficamos assim. Meu mundo seguro e pequenino.
