Acto III, Cena 3.1 (continua)
ACTO III
Cena 3.1
PEDRO ACTIVISTA
Caros colegas revolucionários, venho aqui à
frente, pegar no microfone, quer dizer falar ao
microfone, que este aqui está pegado à madeira,
pois...Como dizia, venho aqui à frente para
denunciar uma situação muito grave que acontece em
Portugal. País alegadamente de Primeiro Mundo. Venho
denunciar a escravatura que a crise, com o apoio
dos governantes políticos produziram. Meus
amigos, neste momento há escravatura em Portugal.
Isso mesmo, ESCRAVATURA!! Escravatura, sim, ouviram
bem. Nestes tempo virou moda as empresas solicitarem
(entre aspas)aos seus potenciais funcionários, um
período experimental de um mês ou dois, não
remunerado. É isso mesmo, não remunerado! E não é um
caso ou dois! Já tive conhecimento de vários casos,
através de colegas meus, de desempregados com cursos
superiores,candidatos a emprego até com alguma
experiência, aos quais, gestores de recursos humanos,
com o maior descaramento, lhes propõem trabalhar de
graça. Querem convencer as pessoas, a trabalhar um
mês inteiro sem qualquer salário, na esperança de se
gostarem do seu trabalho serão contratados. E vêm com
a lengalenga de haver muitos desempregados, de estar
difícil encontrar emprego, o mercado está
saturado..., que as pessoas têm de se sujeitar. E há
quem se sujeite, com certeza a essas condições
desumanas, e se sujeite também a no fim do mês levar
um pontapé e ser substituído por outro desempregado
desesperado que também aceite ser escravo. Isto é um
retrocesso social completamente inaceitável!! É isto
que está a acontecer ao país, os portugueses estão a
ser transformados em escravos, tendo como senhores o
governo e essa irmandade da troika. Por isso temos de
agir, temos de tomar medidas! Obrigado.
JOANA PRECÁRIA
Boa tarde, o meu nome é Joana, sou precária. Joana
precária, parece-me um bom nome. Ahhh. Eu partilho
muito da indignação do colega Pedro. Eu, felizmente
nunca tive uma proposta desonesta destas. Quer dizer
até no tempo dos meus pais um aprendiz de fabrica
ganhava, desde o primeiro mês. Mas o que é isso! Eu
não sou jurista, mas tenho a certeza que isto até é
ilegal. Mas pronto, também agora os patrões fazem
tábua rasa do que a lei diz, a respeito dos direitos
dos trabalhadores. Acho que isto é só mais uma prova
da destruição do Estado Social, tal como o
conhecemos. Querem estes senhores da banca, dos
grandes grupos económicos degradar o modelo social de
estado que caracteriza a Europa, substituindo-o por
um modelo ultraliberal. Um modelo como existe na
América, um modelo gerador de muitos pobres e poucos
ricos, mas sendo estes muito ricos. Um estado em que
se morre por não se ter acesso aos hospitais, em que
a educação de qualidade está garantida a apenas uma
minoria. Um estado em que milhares de pessoas
dependem de cupões de comida para não morrerem à
fome. E, sorte a deles que foi Obama que ganhou as
eleições, senão até isto já tinham cortado. Não é com
certeza este o modelo que eu quero para Portugal,e
não é com certeza o modelo que querem os
portugueses.
ANA EXALTADA
REFUNDAÇÃO do Estado. É esta a palavra REFUNDAÇÃO,
que nos querem impingir. O que será refundar o
estado? Perguntamos nós ao primeiro-ministro. E ele
nos esclarece, é discutir o estado, as funções que
queremos que ele tenha, o que podemos esperar dele.
Isto porque nós não queremos pagar impostos
suficientes para o sustentar, não é, os LUXOS,
leia-se direitos, que estamos habituados a ter.
Aliás, nós andamos estes anos todos a viver acima das
nossas possibilidades!! Será senhor
primeiro-ministro? Têm a certeza?! Então se os
impostos são para custear a saúde, a educação, a
segurança social, que nos dá os direitos a que
estamos habituados, para que é que pagamos a
brutalidade de impostos que pagamos agora? Já que
nunca como hoje, temos cada vez menos serviços
públicos. As escolas públicas, senhor
primeiro-ministro, têm turmas com mais de trinta
alunos, faltam professores, os hospitais estão às
moscas, porque os doentes não podem pagar 20£ por uma
urgência. As auto-estradas, (essa é o cumulo!), estão
vazias com as suas portagens, enquanto que as
esburacadas das estradas nacionais servem de palco a
tráfego intenso e acidentes...E diga-me lá, senhor
primeiro-ministro, porque havemos NÓS pagar impostos
para pagar juros a AGIOTAS?!! Vai passar a ser este
um dos objectivos do ESTADO NOVO, dar dinheiro a
especuladores de dividas soberanas,
socorrer
JOÃO CALÃO ANA EXALTADA
CHULOSSSSSSSS! socorrer bancos
privados com o
dinheiro de todos
nós?! É isso que quer?
JOÃO CALÃO 2
É, é, isso mesmo! Esse filho da puta está feito com
eles. Quanto deve meter ao bolso por trás! E nós os
burros pagamos essas MERDAS
todas!!
CLÁUDIA MODERADORA
Peço à assistência que não interrompam os colegas que
discursam, vamos tentar manter a ordem, de modo a
saírem medidas produtivas deste encontro. Dou agora a
palavra ao Paulo Costa, e peço à Joana Meireles que
se prepare.
(Continua...)
