0 que é poesia?
Ensaio poético:
O que é a poesia?
Estando ao fundo dum corredor do que era um mosteiro, sobre o fundo azul, placares cheios de avisos para não fumar, bancos antigos e uma janela entreaberta para um jardim em frente, pergunto-me o que é a poesia. Ao lado ouço uma aula em inglês, falam em emoções. Do outro lado ouço uma cassete de rádio também em inglês, só que agora a voz é masculina. O sotaque é britânico.
Num contexto alheio a questão, que só se liga com o estudo da língua à nossa questão. Isto porque a poesia usa a língua, é esta a sua matéria prima, mas, óbvio, não terá de ser necessariamente em inglês. Bem, já temos matéria, agora métodos de produção. Vamos reflectir sobre a evolução tecnológica, o avanço da ciência e aferir as técnicas mais modernas para a poesia produzir. Recolho às minhas aulas de literatura e acho que acabamos no modernismos, sendo o último grito o surrealismo, do qual não vimos exemplos, contudo sei do já defunto Cessarine. Consistia em fugir do real, procurar o fantástico, a imaginação. Porém, lembro-me agora, atendendo à mútua influência entre literatura pintura, que depois apareceu o abstractismo. Suponho que aqui a poesia apenas lidará com a forma, sem significado directo, talvez um amontoado de palavras.
Já agora, (influências das aulas de economia), vamos falar dos modos de produção. Quem tem a força do trabalho? Poetas? E quem são poetas? Não sei, avancemos. Quem tem os meios de produção? Já agora o que são? São as matérias primas e os instrumentos de trabalho, logo língua e técnica. Acho que a língua é um bem público, já agora írival, e as técnicas apreendizarão-se por ai, não sei onde. Logo como língua é um bem público, o proletariado pode usa-la sem depender de um empresário. Agora quanto à técnica, continuo sem saber. Daqui se conclui, fora a incógnita já dita, que não há luta de classes na poesia, já que os trabalhadores são donos (embora não exclusivos) dos meios de produção, que usam para subsistir. Se não há lutas de classes, estaremos no fim da história, e vivemos num comunismo poético: há plena igualdade entre poetas, não exploração do poeta pelo poeta, e outras premissas. Mas, então só devemos ter poetas geniais, todos a nível de Camões e afins. Já agora, como a língua é pública, todos que a usam são poetas. Logo vivemos na república dos poetas.
Parece haver alguma incoerência com a realidade mas, não no meu discurso, visto que há pouco, fizemos uma ressalva, que era a questão da técnica. Nas minhas duvidas sobre a sua natureza, especialmente, se se trata dum bem público ou privado, pedi opinião a umas amigas. Uma delas diz-me que a técnica pertence a cada poeta e é inata. Com esta resposta, de cariz liberal, derruba-se a minha república dos poetas. Terá os meios de produção poética quem for o predilecto de um Deus qualquer. Deste modo, a desigualdade poética é o estado natural das coisas. Eis que me lembro das aulas de ciências sociais com professores empiristas inconfessados. Estes diziam ser maior a influência do meio do que a da natureza. Nesta visão, a técnica podia ser apreendida, dependendo a qualidade de ser poeta apenas do acesso a essa educação. Ora como não há igualdade de oportunidades, há desigualdade poética.
Como vemos, o resultado de ambas as correntes é igual, ou melhor, o desigual. Contudo se seguirmos a via empirista, aferimos que se houver igualdade de oportunidades no acesso à técnica todos poderão ser poetas. E teremos novamente a nossa república. Vemos assim afirmado a luta de classes entre os poetas e os não poetas. Os últimos não têm acesso à técnica, daí terem de criar língua, usada depois pelos poetas para criar poesia, e daí só através destes poderem usufruir de poesia. Assim enquanto esperamos pela ditadura dos não-poetas, contenta-se o proletariado em escrever prosa, protestando do jugo dos BURGUESES-POETAS.
Ricarda Melo
