A Elite
Estava aqui agora, a ler uma reportagem dum jornal de ontem. Apresenta uma serie sobre adolescentes. Dando a voz aos mesmos, às suas angústias e preocupações, modo de vida. Parece uma ideia interessante e gira. Pois, só que o rapaz, em que se centra a história de ontem, não é o comum dos adolescentes, também não é nada especial. Só pertence à elite, à classe média alta. Estuda em escola privada, já andou no Colégio Alemão, pai engenheiro, mãe licenciada em matemática. Preocupa-se com o desemprego, com algum episódio de pobreza visto no caminho do shopping, com a média do curso de entrada na universidade. Não anda assim muito longe das preocupações dos outros adolescentes.
A questão que me chama a atenção é a escolha da jornalista por este miúdo. Ela não foi à rua e escolheu um ao acaso. Ela com certeza que escolheu o filho de alguém, dentro do seu grupo de amigos e conhecidos. Eis a situação, a própria jornalista vem dessa classe média alta, e é sobre ela que escreve, é sobre essa realidade que contextualiza os temas que aborde. Mesmo num tema como a adolescência, isso faz a diferença. Pode parecer irrelevante, todavia o comum leitor do referido jornal, cada vez com menos leitores, não é da classe média alta, e eu não sei até que ponto se interessa por saber as angústias dos adolescentes dessa minoria.
A jornalista provavelmente não o faz de propósito, contudo deu uma prova de como há um desfasamento entre quem retracta a realidade, mais a sua percepção dela, e a própria realidade. O país real, do qual eu já falei noutro texto. Afinal é muito difícil à elite ver para além do seu binoculo. E se é essa a elite que nos governa, (não apenas em termos políticos), com uma visão parcial da sociedade portuguesa, dificilmente saberá tomar as medidas e acções mais adequadas e necessárias à resolução dos problemas desta.
